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Telmixa

Mix de leituras, organização, tv, filmes, tecnologia e de mim, claro!

Telmixa

Mix de leituras, organização, tv, filmes, tecnologia e de mim, claro!

Grandes autores: de Julian Barnes a Lecticia Wierzchowski

Grandes autores

 

O Sentido do Fim, de Julian Barnes // 3 estrelas

Tinha grandes expectativas para um livro que comprei apenas pela capa e pelo título.

Talvez, o ter sido vencedor do Man Booker Prize em 2011, fosse a razão pela qual eu me tinha convencido que este seria um livro pequeno mas deslumbrante. Pequeno sim mas longe de deslumbrante.

O fim dá sentido às reacções de outras personagens e aos acontecimentos mas, a revelação no final fica tão aquém do surpreendente que pergunto-me o porquê de ter sido o vencedor de um prémio tão prestigiado.

 

O Amor nos Tempos de Cólera, de Gabriel García Márquez // 3 estrelas

Talvez a minha grande desilusão do ano.

Sendo o Cem anos de solidão o meu livro favorito e, querendo marcar a morte deste grande autor com a leitura de um dos seus livros, este O Amor nos Tempos de Cólera revelou-se uma leitura sofrível, que se arrastou por vários meses, por vezes deixando-me a pensar porque é que continuava a lê-lo.

Não gostar do protagonista é, para mim, meio caminho andado para desistir do mesmo e, Florentino Ariza é, provavelmente, um dos mais errados e desinteressantes heróis românticos que já li. Talvez na cabeça de Márquez, a ideia de um indivíduo feio e mulherengo com alma de poeta e perfil de stalker fosse glamorosa o suficiente para daí escrever um livro em que o amor vence, mesmo quando a mulher passa mais de 50 anos a dizer que não. Na minha cabeça não é não, não é amor.

Além disso, a característica que mais gosto da sua escrita, o realismo mágico, pouco ou nada surgiu. Ficam como pontos positivos a sua escrita maravilhosa e um retrato interessante das caraíbas do virar do século XX.

 

Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell // 4 estrelas

"Big Brother is watching you" é a expressão que me vem à cabeça sempre que vejo câmaras de vigilância ou sempre que surge um novo debate sobre a perda de privacidade nos dias que correm.

Publicado em 1949, Mil Novecentos e Noventa e Quatro é o livro que dá origem a esta expressão e já estava há muito na minha lista "para ler". É considerado como um dos grandes livros do Séc. XX e ainda hoje (talvez mais do que nunca) actual e é daqueles livros que, por isso mesmo, me intimidam como leitora.

Gostei muito do livro, do conjunto de ideias apresentado (políticas, sociais), gostei de todo o conceito distópico e foi sem dúvida um livro que me deu muito para pensar. No entanto todo o ambiente sufocante e soturno, a prosa monótona e o meu pouco interesse no destino final das personagens, fez com que este livro acabasse por não ser um favorito meu.

 

A casa das sete mulheres, de Lecticia Wierzchowski  // 4 estrelas

Uma das leituras preferidas dos últimos tempos.

Foi-me altamente recomendado por várias pessoas, entre elas a Cat_Sadiablo que foi uma querida por me ter emprestado a sua muito valiosa e muito rara cópia do livro.

Conhecia (e amava) a história e as personagens pela série de TV que afinal, foi criada a partir deste livro. No entanto, enquanto que na série de tv foquei mais a minha atenção nos amores e sofrimentos de cada uma das sete mulheres da casa, no livro também pude usufruir de um pouco de História, nomeadamente o que foi a Revolução Farropilha, que levou à desanexação do estado do Rio Grande do Sul do resto do império do Brasil. Afinal o romance entre Manuela (a minha personagem favorita da série e a narradora de partes desta história) e Garibaldi existiu mesmo e esta ainda é hoje conhecida na zona onde viveu como a "Noiva de Garibaldi".

Além do excelente desenvolvimento da parte histórica que o livro apresenta, outro facto que o torna extraordinário é a linguagem. A mistura de termos portugueses com castelhanos poderia ter dificultado a leitura do mesmo. No entanto, Lecticia Wierzchowski é exímia na forma como o faz, nunca sendo uma leitura de difícil compreensão e ajudando até a entrar no universo que este livro retrata.

Outro ponto a favor é o retrato e o foco nas personagens femininas durante uma época tão turbolenta como é a de um cenário de guerra.

É um livro que recomendo (apesar de ser impossível de encontrar em Portugal) principalmente para quem gosta de ficção histórica e pretende ler algo não anglo-saxónico.

O Padrinho, de Mario Puzo

O Padrinho

 

Para mim "O Padrinho" vai ficar para sempre associado à praia, estendida ao sol, tentando acabar as últimas páginas do livro mas lamentando terminá-lo.

Mário Puzo é um escritor excepcional. Esperava uma escrita crua como a de outros escritores que li dentro do mesmo género e fui surpreendida por uma prosa que nos envolve e aconchega. São setecentas e quatro páginas de puro prazer e entretenimento. Todos nós temos uma noção do que é a Máfia italiana mas só quando se lê este livro é que compreendemos a sua verdadeira essência. Como é formada essa teia de influências e favores, por que valores se regem estes homens, que têm uma cultura tão enraizada que nem um novo país com leis diferentes consegue mudar. Submundo, rede de tráfego de influências, luvas, tudo é aqui explicado através das palavras e acções destes senhores. As suas vidas são algo de assombroso: vivem com a morte e a violência diariamente. Afinal, isso é algo que faz parte do negócio. E só ao ler o livro é que percebi (vi os filmes primeiro) o quanto eles acreditam que o que fazem é bom e correcto. Os seus valores morais, intrinsecamente ligados à religião, são o que lhes dão a justificação para fazerem o que fazem. E são de tal forma convincentes que dava por mim a concordar com eles, a torcer por estes "heróis" que nada mais fazem do que proteger os mais desfavorecidos.
Vito Corleone é inegualável. A primeira vez que vi o filme foquei-me mais na transformação de Michael mas depois de ler o livro fiquei rendida à história de este homem que chegara aos EUA ainda menino, sozinho e sem nada e que tudo conseguiu por ter uma mente arguta e um bom par de "cojones".
Na eterna discussão sobre o que é melhor (livro ou filme) eu vacilo neste caso específico. Como não querer ver o Marlon Brandon como Vito Corleone? Como não ver o Al Pacino transformar o vacilante Michael Corleone no poderoso sucessor do seu pai? A minha conclusão é que ambas as obras complementam-se e ajudam à compreensão da complexidade deste enredo que forma "O Padrinho".

 

Nomes dos personagens: Vito Corleone, Sonny e Michael Corleone, Tom Hagen, O "Turco" Sollozo, o capitão da polícia McCluskey, Peter Clemenza, Johnny Fontane, Luca Brasi.

Nomes dos lugares: Sicília, Nova Iorque.

 

Violência física: Sim
Violência psicológica: Sim
Tipo de cenas: Mortes violentas, chantagens, perseguições.
Mensagem: Política, Religiosa
Pontos positivos: O enredo intrincado e complexo, a escrita, as frases tão poderosas que entraram no nosso vocabulário.
Pontos negativos: Os capítulos de Johnny Fontane.
Fez-me reflectir sobre: Valores morais, família, protecção, dever.

 

Autor: Mário Puzo
Editora: Bertrand
Estante: Grandes autores
Período de leitura: de 26 de Julho a 17 de Agosto de 2013
Formato: Papel
Língua: Português
Classificação: 5: Adorei-o! É muito bom.

A casa dos espíritos, de Isabel Allende

 

A Casa dos Espíritos

Apesar de ser apaixonada por literatura sul-americana sentia-me simultaneamente curiosa e intimidada em ler este livro, pela sua popularidade. "A Casa dos Espíritos" foi um livro de grande sucesso em Portugal, sucesso este impulsionado pela filmagem do livro nele baseado ter sido feita quase na sua totalidade no nosso país. Ultrapassada esta pressão mergulhei na sua leitura e depressa percebi que pouco ou nada me lembrava dos acontecimentos que tinha visto no filme há muitos anos atrás.
A acção desta história decorre num país sem nome da América do Sul, em tudo semelhante ao país da família da autora, o Chile. Neste livro seguimos três gerações da mesma família, desde o início do século até ao golpe de estado que depôs "O Candidato" eleito nos anos setenta. É curioso como o vilão da história sobrevive a todos os outros personagens que, de uma forma ou de outra, perecem à sua volta. Esteban é um homem duro e muitas vezes cruel, determinado a impor a sua visão do mundo na vida de todos aqueles que o rodeiam.

Felicitou-se por ter comprado uma passagem mais cara, pela primeira vez na vida, e concluiu que era nos pormenores que estava a diferença entre um cavalheiro e um camponês. Por isso, embora em má situação, desse dia em diante iria gastar dinheiro nas pequenas comodidades que o faziam sentir rico.

 

Essa sua atitude acaba por alienar todos aqueles que ele ama, principalmente Clara, quem ele amava de uma forma quase doentia. 

Enquanto Esteban é o sustento financeiro para as mulheres da sua vida, estas são o seu sustento emocional e espiritual. Sem elas Esteban não é ninguém e a morte de cada uma delas transforma sempre o rumo da sua vida.
Clara é uma dos três narradores da história e, durante grande parte da história, o pilar desta família pouco convencional. As suas qualidades sobrenaturais dão um colorido interessante a esta história maioritariamente de tom político. Aliás, não fossem os conflitos familiares, as características extravagantes de alguns personagens e o romance, "A Casa dos Espíritos" seria um livro terrivelmente monótono abafado pelos ideais políticos que a autora tenta transmitir. Há muito mais para dizer sobre este livro em termos de simbologia mas penso que análises desse tipo são mais dignas para uma dissertação do que para uma opinião geral de um blogue. Além disso sinto que sempre que sobreanaliso uma obra acabo por "matar" um pouco a magia da primeira leitura, patamar onde me quero manter em relação a este livro.
Gostei bastante d' "A Casa dos Espíritos" , principalmente do seu enredo denso e complexo, inundado de personagens interessantes e situações um pouco invulgares. A escrita é muito bonita mas longe da beleza de outros autores sul-americanos, como Gabriel Garcia Marquéz.

 

Nomes dos personagens: Clara, Blanca, Alba, Esteban, Férula, Pedro Tercero.
Nomes dos lugares: Três Marias, a grande casa da esquina, a capital.
Conteúdo sexual: Sensual e pouco descritivo.
Violência física: Sim, algumas cenas de tortura são descritas com bastante detalhe.
Violência psicológica: Sim, discussões e confrontos.
Mensagem: Maioritariamente política.
Pontos positivos: E escrita, a história da família e os poderes de Clara.
Pontos negativos: A parte política da história que quase sufocou o final.
Fez-me reflectir sobre: O quanto estamos ligados e precisamos uns dos outros.


Autor: Isabel Allende
Série: Tripartite (#3 de 3)
Editora: Difel
Estante: Grandes autores
Período de leitura: 21 de Junho a 27 de Julho de 2013.
Formato: Papel
Língua: Português
Classificação: 4: Gostei muito.

Rebecca, de Daphne du Maurier

 

Expectativa: Pouca ou nenhuma. Tinha lido muitos elogios à autora e escolhi o "Rebecca" por entre as várias obras delas para ler, ao calhas.
Estado de espírito: Um pouco incerta e a sentir-me muito reservada em relação às minhas leituras e sem vontade de partilhar com o mundo o que estava a ler. Introspectiva.
Opinião: Uma simples frase abre o romance, como se fosse o próprio portão de Manderley que se abrisse para o leitor:
"Last night I dreamt I went to Manderley again".
Foi difícil para mim compreender aquele primeiro capítulo inicial: todo ele a descrição de um sonho, a revisitação de um lugar, o porquê da impossibilidade dos personagens em lá voltarem, as saudades que dele tinham. É preciso ler todo o "Rebecca", até mesmo à última folha, para perceber o porquê. Uma coisa eu já tinha certeza antes ainda de o ter acabado: estava a ler um dos melhores livros que tinha lido até ao momento. A escrita de Daphne du Maurier é muito boa, envolvente, rica e facilita a visualização dos lugares e situações.
O livro é narrado por uma jovem que depressa se percebe que é insegura, jovem e algo inexperiente. É, no geral, uma pessoa inteligente mas introvertida que consegue cativar Max de Winter, que a pede em casamento. Todos os capítulos até à chegada a mansão após o casamento e lua-de-mel parecem como um enorme prelúdio: fala-se em Manderley, fala-se em Rebecca, na sua vida e morte, mas tudo parece ser algo distante e despreocupado.
O momento chave de entrada em Manderley acontece quando a jovem conhece Mrs Danvers:
"Someone advanced from the sea of faces, someone tall and gaunt, dressed in deep black, whose prominent cheek-bones and great, hollow eyes gave her a skull's face, parchment-white, set on a skeleton's frame. She came towards me, and I held out my hand, envying her for her dignity and her composure; but when she took my hand hers was limp and heavy, deathly cold, and it lay in mine like a lifeless thing. 'This is Mrs Danvers,' said Maxim, and she began to speak, still leaving that dead hand in mine, her hollow eyes never leaving my eyes, so that my own wavered and would not meet hers, and as they did so her hand moved in mine, the life returned to it, and I was aware of a sensation of discomfort and of shame."
O mais interessante é as reviravoltas inesperadas: a narrativa desenrola-se de uma forma algo devagar, serena, contemplativa e, subitamente, o inesperado acontece. Uma revelação, um evento e a história mudava subitamente de rumo, aquilo que parecia acontecer não acontecia, o improvável revelava-se. Até ao fim, até à última página.
Pessoalmente gostei muito mais dos personagens secundários do que dos principais: a jovem narradora com as suas inseguranças consegue ser extenuante (apesar de ser eficaz para a criação de suspense) e o Max de Winter consegue ser detestável durante 99,9% da história. Até da própria Rebecca gostei, personagem que apenas conhecemos através da memória dos outros. É no entanto a Mrs Danvers a figura mais enigmática e interessante de todo o livro, uma das vilãs que mais arrepios me provocou até hoje.
Quando terminei a leitura deste livro procurei saber um pouco mais sobre a escritora e foi interessante descobrir os eventos da vida real da escritora que a levaram a escrever "Rebecca". Toda a história ganhou uma nova dimensão perante os meus olhos: o porquê da narradora ser uma jovem ingénua e mais jovem que o marido, o fantasma da mulher anterior, as comparações na boca das pessoas. Quanto mais semanas passam depois de terminada a leitura de "Rebecca" mais percebo a sua complexidade e a quantidade de temas e sentimentos complexos abordados na obra. Este livro não é apenas um thriller ou um mistério para resolver: é um caminho para a maturidade, para a confiança e amor no casamento e para a descoberta de uma identidade própria e confiança em si mesmo.
Resumo: Uma jovem ingénua conhece um homem mais velho em Monte Carlo e após um breve período de namoro, casam e vai viver com ele para Manderley, a sua mansão. Lá é confrontada com o passado ainda muito recente da morte a primeira mulher de Max de Winter, Rebecca, que a governanta Mrs Danvers se esforça para manter a memória viva. Uma tragédia vai trazer de forma brusca e inesperada os segredos do passado à superfície, obrigando a revelações inesperadas e a um futuro incerto.
Pontos positivos: A construção detalhada da história e a forma inteligente como os dá reviravoltas e surpreende o leitor.
Pontos negativos: O Max de Winter está muito longe do meu conceito de homem romântico, ou minimamente interessante. Também a narradora não achei interessante.
Fez-me reflectir sobre: Amores impetuosos, primeiros amores, diferenças de idades, segundas oportunidades, obsessões.
Excerto / Citação:

Pág. 5 - Happiness is not a possession to be prized, it is quality of thought, a state of mind.
Pág. 35 - They are not brave, the days when we are twenty-one.
Pág. 201 - I thought how little we know about the feelings of old people.
Pág. 221 - Men are simpler than you imagine, my sweet child. But what goes on in the twisted tortuous minds of women would baffle anyone.
Pág. 302 - It doesn't make for sanity, does it, living with the devil.
Pág. 354 - It's funny, I thought, how the routine of life goes on, whatever happens, we do the same things, go through the little performance of eating, sleeping, washing. No crisis can break through the crust of habit.


Adaptação cinematográfica: "Rebecca", realizado por Alfred Hitchcock, acabou por ser o vencedor do Oscar de melhor filme em 1941. Para mim, o Lawrence Olivier conseguiu transformar o Max de Winter numa personagem interessante e charmosa e faz o filme todo.
Links interessantes: A Tale of Three Houses: Menabilly, Milton Hall and Manderley

Revolutionary Road

Resumo: Revolutionary Road conta a história de Frank e April Wheeler, um jovem casal americano dos anos 50 que têm uma vida estável e perfeita nos subúrbios de Nova Iorque. No entanto ambos estão terrivelmente infelizes com a vida que têm pois sentem que abdicaram dos seus sonhos quando casaram e tiveram filhos. Decidem então partir, deixar para trás aquele lugar e irem viver para Paris, um lugar que sempre sonharam, um lugar melhor. O problema é que Frank tem de enfrentar o medo de um futuro incerto e April terá de lutar para que não desistam da mudança.

Expectativa: Esperava um bom livro, sério e pesado mas receava não gostar da escrita ou que fosse muito enfadonho. 

Opinião: Mesmo que não tivesse gostado da história teria adorado a experiência de ler Richard Yates. Que escritor maravilhoso. Adorei tanto mas tanto a sua prosa, a forma como nos apresentava as cenas, em que actos e pensamentos, frases e ideias coexistiam todos no mesmo parágrafo. As discussões, as emoções são tão bem narrados que senti-me na pele daqueles personagens, vivendo aquele dia-a-dia, sofrendo a agonia dos dias que passam e da vida não muda.
O tema do livro é o mais banal possível: um casal em ruptura, com discussões constantes, em sofrimento. Um tema que pela sua simplicidade faz-nos acreditar que será outro livro banal só que a forma como Yates desenvolve as cenas, interliga os personagens, as suas acções e consequências (além da sua escrita maravilhosa) é que o torna cativante.
É sobre a perspectiva de Frank que conhecemos grande parte da história: a sua incapacidade de alcançar April, o trabalho enfadonho, a traição, a euforia e posteriormente em partir. Houve momentos que me repugnou com as suas mentiras e manipulações, outras que senti compaixão porque afinal ele é cobarde, como todos nós o somos pelo menos uma vez na vida. Do outro lado April, a altiva, a autora da louca ideia de partirem para Paris, é a pessoa mais infeliz de toda a história. Quando o livro começa presenciamos o último dos seus sonhos a ser esmagado. É terrível estar na pele dela. A mulher, a dona de casa, a mãe... ela é tudo aquilo que não desejava ser naquele momento.
Nas discussões por vezes ficava do lado dele, outras do dela. Amei e odiei ambos porque revi-me em ambos, no bom e no mau.
John Givings entra em cena como o elemento destabilizador: ele é o louco, sem filtro social, que diz o que pensa e por isso mete o dedo na ferida e esfrega. É ele que compreende a loucura dos Wheelers em partirem do "vazio sem esperança" e é ele que abre o jogo quando estes anunciam que já não o vão fazer.

Uma pequena nota: não resisti em ver logo a seguir o filme realizado por Sam Mendes, com a Kate Winslet e o Leonardo Di Caprio. A adaptação está perfeita com ambos os actores a fazerem uma interpretação excepcional. No entanto a escrita de Richard Yates é incontornável e merece ser lida.

Pontos Positivos: A escrita maravilhosa de Richard Yates, o tema íntimo que retrata, a forma crua como a história é contada.

Pontos Negativos: Não tem.

Estado de Espírito: Muito bom, ansiava há algum tempo em ler algo assim.

Fez-me reflectir sobre: As expectativas da juventude, os sonhos quebrados, a coragem e a cobardia. O espaço vazio que a falta de amor deixa.

O grande Gatsby

Resumo: Vive-se o tempo após Primeira Grande Guerra Mundial e Nick decide rumar a leste à procura de uma nova vida e mais excitação. Nesse verão reata a sua amizade com uma prima afastada, Daisy e o seu marido Tom e trava conhecimento com o seu vizinho Gatsby. Este é conhecido por dar todas as semanas umas festas extravagantes, inundadas de pessoas conhecidas e desconhecidas. Rapidamente Nick torna-se o veículo de reaproximação de Gatsby e Daisy, que tinham estado apaixonados no passado, mas esta relação tem tudo menos de idílico e a tragédia acaba por acontecer, ficando a história para sempre marcada na memória de Nick.

Expectativa: Boa, estava desejosa de ler algo normal, com pessoas normais e O Grande Gatsby, conhecido como um clássico da literatura americana, correspondeu à expectativa.

Opinião: Durante a primeira parte da leitura achei esta história chata e um pouco frívola. O que faz é introduzir-nos ao tempo, lugar e grupos sociais da época. Como o livro é relativamente pequeno pensei que toda aquela descrição de festas, conversas ocas e relacionamentos superficiais fosse passar rapidamente. E passa mas vejo agora, após ter terminado o livro, que era uma descrição necessária, porque dá o mote para a crítica que Fitzgerald pretende fazer com esta história.
Esta história é sobre, traduzindo a expressão à letra, o velho dinheiro contra o novo dinheiro. Ou então "aqueles que herdam o dinheiro" contra "os que se tornam ricos pelos seus meios".
Gatsby começa por ser um personagem muito misterioso, que dá grandes festas e tem muito dinheiro. Ele representa o novo rico, o "self made man", que soube aproveitar as oportunidades que a vida lhe deu para fazer fortuna. As suas festas são loucas e desordenadas, cheias de excesso e a intenção era, penso eu, o quanto Gatsby não sabia controlar as suas festas, quem nelas entrava, não fazia convites, as pessoas apenas apareciam. As pessoas nem sabiam quem ele era ou se interessavam em saber.
Por outro lado temos Tom e Daisy que representam duas pessoas que nasceram ricas e sempre o foram. "A voz dela está cheia de dinheiro" foi a frase que fez clique na minha cabeça e perceber qual era o tema do livro. Um exemplo muito simples: uma "tia". Quantos de nós não apontamos um tio/tia/beto apenas pela forma como falam? E sabemos muito bem que atrás do sotaque existe um estatuto social especial, cheio de dinheiro herdado ou, mesmo sem dinheiro, cuja educação os fazem demarcar automaticamente do restante povo.  Através de Tom vemos o exemplo de quem tudo tem e tudo pode. Tem o casamento de aparências com Daisy, aquilo que a sociedade a que pertencem aceita e depois tem uma amante, uma mulher sem maneiras ou refinamento, excêntrica de gostos, que também engana o marido, e que só pensa em adquirir luxo.
Daisy, que parece inicialmente uma pobre vítima das circunstâncias acaba também por mostrar o quanto ela pertence a essa elite de dinheiro herdado, corrupta, sem princípios nem honra.
Todos estes intervenientes vão chocar entre si e o resultado é a forma que Fitzgerald encontra para mostrar o quanto o sonho americano é efémero e que não pode ser baseado apenas no dinheiro adquirido. A sociedade não (re)conhecia Gatsby, desconfiava dele até, mesmo que os seus negócios fossem lícitos. Por outro lado nunca é questionado qual a fonte de rendimentos de Tom e Daisy, apesar de viverem na opulência e não fazerem nada, porque toda a gente sabe a sua origem. E para uma novela escrita no início do século passado é, nesta crítica, ainda muito actual. Infelizmente.
A minha grande crítica negativa vai para a edição portuguesa que li. Tenho uma edição barata da Biblioteca Visão, que ganhei através do BookMooch. A tradução era de bradar aos céus de tão má que era e certamente que alguma da beleza da prosa se perdeu, porque pareceu-me apenas fria e simplista. O Grande Gatsby é um livro pequeno, fácil de ler, com um número reduzido de personagens e lugares e por isso muito fácil de acompanhar os acontecimentos. Deixa por isso uma certa "fome" porque ele podia ter feito um pouco mais, ter desenvolvido mais sobre o passado de Gatsby e Daisy, a motivação de Tom, etc... Não é por isso um livro extraordinário mas apenas um livro bom, para mim.

Pontos positivos: A crítica social que nos é apresentada de uma forma subtil e indirecta.

Pontos negativos: A tradução, aiiiii! Ainda sofro quando penso que "passe" foi traduzido por bilhete de comutação.

Estado de espírito: Bom, primeiro livro do ano!

Fez-me refletir sobre: As diferenças sociais que ainda existem e o quanto impedem que pessoas boas, bons profissionais de alcançar lugares de destaque só porque não nasceram em certas famílias.

O Monte dos Vendavais

Resumo: A história de o Monte dos Vendavais afecta duas gerações. Na primeira, Catherine e Hindley são crianças quando o pai deles, Mr. Earnshaw regressa a casa após uma viagem de 3 dias com um rapazinho órfão, escuro como um cigano, que encontrou deambulando sozinho. O rapaz chama-se Heathcliff e fica no Monte dos Vendavais para ser educado de forma igual aos seus filhos. Mas após a morte deste, Hindley toma conta do monte e relega Heathcliff para criado da casa. Catherine percebe que não terá um futuro confortável se ficar com Heathcliff e decide aceitar o pedido de casamento de Edgar Linton, um dos herdeiros da Granja. Ao ouvir esta decisão confessada por Catherine a Nelly, a criada do Monte, Heathcliff decide partir e só regressa 3 anos depois, rico e sedento de vingança. Decide seduzir a irmã de Edgar, Elizabeth, que já se tinha enamorado por ele entretanto. Elizabeth, Catherine e Edgar têm então uma briga terrível, levando Catherine a cair numa depressão após de 3 dias trancada no quarto sem comer. Elizabeth foge com Heathcliff e casam e Edgar corta relações com a irmã. Catherine está grávida e recupera lentamente mas, quando Heathcliff sabe, meses depois que esta não está bem, pede a Nelly para se encontrar com ela. A intensidade do encontro entre ambos é devastador para ambos: Catherine dá à luz horas depois, uma menina, e morre. Algumas horas após o funeral Elizabeth foge do Monte dos Vendavais, levando no ventre o fruto da sua infeliz união a Heathcliff.
Treze anos passam. Cathy, a filha de Catherine e Edgar cresce feliz na Granja junto a seu pai e a Nelly. Elizabeth e Edgar reconciliam-se quando esta lhe escreve que está prestes a morrer e deixar o seu filho Linton órfão. Linton vai buscá-lo mas a lei não lhe permite a adopção dado que o pai Heathcliff ainda está vivo. O rapaz é levado para o monte dos vendavais para viver junto do pai, de Heraton Earnshaw, o filho de Hindley que morreu após uma vida de abuso de álcool, e do empregados. Heathcliff aproveita-se da inocência de Catherine, para levá-la a casar com Linton e assim ficar com toda a fortuna que pertenceu aos Earnshaw e aos Linton. Quando isso finalmente acontece e a sua vingança é terminada, Heathcliff morre.

Crítica: Há tanto para falar deste livro que é difícil escolher sobre o que não falar.
É sem dúvida um livro com uma prosa de elevada qualidade, já tão difícil de encontrar. Achei inacreditável a imaginação e criatividade demonstrada para elaborar algo tão denso de acções e sentimentos. Penso que na altura não deveria ser difícil considerando o número mínimo de distracções existentes. As discussões são páginas e páginas de gritaria, levando os personagens quase ao limite do razoável. São todos egoístas e manipuladores. Acho que de todos só gostei do Hareton, porque conseguiu sublimar-se. Este não é um livro de heróis mas sim um livro de vilões.
A forma como a história é contada levanta muitas questões: é nos contada por Lockwood, que sabe grande parte da história contada por Nelly (ou Ellen) que por sua vez conta os diálogos e os conteúdos dos bilhetes e conversas dos outros. Dei por mim a pensar inúmeras vezes que estupenda memória a Nelly tinha, especialmente ao relembrar as discussões de forma tão detalhada.
Um dos elementos que mais gostei foi do estilo Romântico ou Gótico da história. Toda a paisagem agreste, fria e constantemente fustigada de temporais, chuva vento. A descrição de Heathcliff por ter desenterrado a Cathy e que queria ser enterrado ao seu lado para sentir o rosto frio encostado ao seu, foi uma das descrições que me arrepiou até aos ossinhos. Recordou-me um daqueles poemas do Bocage sobre tormentos e noites escuras. Em muitos pontos os personagens referem a morte como libertação ou salvação.
Mas o que me fez mais gostar do livro foi a quantidade de perguntas que levanta: De que raça era o Heathcliff? Como é que ele enriqueceu? Será que ele era na verdade filho de Mr. Earnshaw e não apenas um órfão que encontrou?
Gostei também imenso do paralelismo entre Heathcliff e Heraton: a ambos foram retiradas a esperança de evoluirem socialmente mas Heraton opta por não se tornar mau embora tenha sido educado para o ser. A diferença de classes, principalmente através da educação, é um tema que surge constantemente. E é interessante como Heraton é descrito: apesar de brutamontes tem um “ar” superior, como se ser de uma classe superior fosse algo genético. Talvez por isso é que Heraton se salva e Heathcliff não.

Expectativa e estado de espírito: É sem dúvida um livro difícil de ler porque em momento nenhum transmite sentimentos de felicidade ou esperança. Comecei a lê-lo na Primavera e tive de parar porque parecia fora de contexto. Foi uma boa opção tê-lo lido agora. Já conhecia a história da sua adaptação de 1992 mas devo confessar que nada me tinha preparado para o que li. É uma leitura muito intensa emocionalmente, com discussões de páginas e páginas em que todos sentem tudo tão ardentemente que por vezes pura e simplesmente não tinha paciência. Sei que se tivesse lido este livro aos 16 ou 17 anos teria feito toda a diferença, para mim. Mas não li, apenas agora e talvez por isso não me tenha deixado impressionar tanto com os amores arrebatadores das personagens.

Pontos positivos: Nesta edição que comprei tenho que elogiar a tradução, estava excelente. A criatividade da autora. A complexidade emocional dos personagens.

Pontos negativos: Nenhum a apontar.
 

Fez-me reflectir sobre: O desejo de manipular os outros. A vingança. A sensação de não ser suficientemente amado.

Links interessantes: The reading guide to Emily Jane Brontë "Wuthering Heights"

Título Original: Wuthering Heights

A Festa de Mrs Dalloway

Resumo: Um conjunto de 7 contos que Virgínia Woolf escreveu para ilustrar e compreender e servir de apoio ao universo que constitui a festa da Mrs. Dalloway.
 
Crítica: Este foi o meu primeiro contacto com a escrita de Virginia Woolf e adorei. Tinha receio que ela tivesse uma escrita muito rebuscada ou difícil mas a poesia da sua escrita é maravilhosa. Senti que o seu raciocínio vinha por ondas, começava numa ideia, que puxava para outra e que nos levava a outra ideia, nunca se repetindo e dando continuidade à narrativa. E a quantidade de sentimentos que ela despeja em cada frase, cada paragrafo é delicioso. Sei agora que não vou recear ler um dos romances desta autora.

Pontos positivos: A escrita.
 
Pontos negativos: Nenhum.

Fez-me reflectir sobre: Os medos em confiar no outro, a dificuldade dos relacionamentos, a barreira que existe entre a realidade e o sentimento.

As noites das Mil e Uma Noites

Resumo: A história começa no dia a seguir a Xerazade ter contado as suas mil e uma histórias. O Sultão decide poupar-lhe a vida. A partir daí a história é levada de personagem em personagem, como se fosse um conto oral transmitido de boca em boca. O bairro é o local onde quase todas as situações decorrem, o café dos Emires o epicentro da vida social das personagens. Ódios, amores, mortes, génios, feiticeiros, homens de deus e políticos, todos surgem numa amálgama de acontecimentos. Deus está sempre presente, nas bocas e espíritos dos homens.

Crítica: Andei a tentar recordar-me se já tinha antes lido um autor árabe mas penso que não. Tive várias dificuldades com este livro, sendo a principal a linguagem. A forma da escrita, o ritmo das palavras é tão diferente que senti-me dividida entre o fascínio e o aborrecimento. Por outro lado tem frases e ideias carregados de simbolismo, religião e valores humanos que convidam a ler devagar. A reflectir sobre aquela ideia. Compreendo por isso porque é que este autor ganhou o Nobel da Literatura. Tal como o outro Nobel que li, Gabriel Garcia Marquéz, o “Cem anos de Solidão”, a solução para ler este livro com sucesso é o desprendimento absoluto. Não há mistério a resolver nem solução ou destino. É uma panóplia de pequenas histórias que se entrecruzam dando um olhar sobre uma sociedade que é social e religiosamente diferente da nossa.

Pontos positivos: As frases maravilhosas, cheias de religiosidade, filosofia e reflexão. A mistura entre o real e o mágico.

Pontos negativos: Sidi al-Warraq, Hasan al-Altar, Galil al-Bazzaz, Suleiman al-Zeimi, Al-Muin Sawi, Shamoul, Fadil Sannan, Ugr, Maruf, Ibrahim, Ragab, Abbas al-Khaligi, Sami Shukri... são alguns dos inúmeros personagens desta história. Ler estes nomes é uma dôr-de-cabeça...

Expectativa e estado de espírito: Sem expectativas, fui surpreendida com uma obra de qualidade, talvez acima da minha actual capacidade de compreensão. Eu realmente precisava de ler um livro mais leve do que este foi.

Fez-me reflectir sobre: As diferenças culturais entre oriente e ocidente, começam na língua mas passam pela cultura e educação. Será possível lançar pontes de entendimento?

A Estrada



Comecei a ler este livro com uma curiosidade louca: o autor tinha vencido o Pulitzer deste ano, a Oprah andava a lê-lo e a história, um pai e um filho a percorrerem uma estrada, num mundo destruído.
A curiosidade em saber como é que o mundo tinha sido destruído foi o que me fez comprá-lo, e também o que me fez continuar a lê-lo. Mas no fim, era o que menos interessava...
É uma leitura pesada, chorei muito e tive que parar a leitura durante uma semana. Retrata um futuro negro, talvez muito próximo e aniquila qualquer sentimento de esperança. Não tem uma filosofia escondida, na minha opinião. É uma história que nos faz sentir em privação, como as personagens do livro. O que faz, afinal, de nós humanos e não animais? O que fazer quando já não resta esperança?
Adorei lê-lo, apesar de não parecer. Adorei, porque senti-me ali: com fome, frio, dores, naquela estrada. Adorei porque não é um livro bonito, para entreter, mas é um bom livro, bem escrito.
Parabéns ao autor, por imaginar o ser humano no limite da sua sobrevivência, aquele momento que não queremos conhecer.
Parabéns ao tradutor por ter capturado bem a linguagem do autor.
Pai e filho numa estrada. O amor emana no meio da destruição, no meio de uma humanidade sem esperança.

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