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Telmixa

Mix de leituras, organização, tv, filmes, tecnologia e de mim, claro!

Telmixa

Mix de leituras, organização, tv, filmes, tecnologia e de mim, claro!

Eu e os livros



 




 




 


 




 



 


Depois de ter lido os testemunhos da White Lady e da Bibliófila, a White Lady perguntou-me se não gostaria de aceitar o desafio também e contar a minha história. Respondi-lhe que não tinha muito para contar e que a minha história era, no geral, triste. Mesmo assim ela respondeu-me que gostaria de saber e por isso, querida White Lady, aqui fica a minha história sobre o meu amor pela leitura.


 


Eu cresci numa casa sem livros. Não tenho uma única memória de ver os meus pais a lerem um livro. O meu irmão até tem um certo orgulho em dizer que lê livros, mas técnicos. Ou seja, eu sou o elemento estranho da família porque leio por prazer. A minha primeira memória sobre o meu desejo de ler prende-se com a novela americana Dallas: supliquei ao meu pai para que me lesse as legendas porque queria saber o que eles diziam. Depois de uma nega lembro-me perfeitamente de pensar: “Fogo, nunca mais aprendo a ler!”


 


Depois de ter aprendido a ler (iéééé!) lembro-me de pedir um livro aos meus pais, ainda estava eu na primária, ao que obtive a seguinte resposta: “Não, que ler cansa. Chegam-te os livros da escola, que já é o suficiente.” Eu devo ter ficado muito desconsolada porque pouco depois recebi 4 livros da Anita da minha vizinha Antónia. A minha vizinha Antónia foi como uma avó para mim, um verdadeiro anjo na minha vida. Ainda hoje não consigo pensar nela sem me lavar em lágrimas de tantas saudades que tenho dela. Os 4 livros da Anita, lidos e relidos até à exaustão são das poucas coisas que me restam dela, além das doces memórias que dela tenho.


 


Fastforward alguns anos. Tinha 12 anos e a professora de Português pediu a todos os alunos que comprássemos um livro de uma lista que tinha feito. Eu comprei o “Viagem à Roda do meu Nome” de Alice Vieira. Obviamente que me apaixonei pelo livro. Ainda por cima falava de um tema que me era tão querido: eu, que sempre tive um nome pouco popular, percebi perfeitamente a angústia de Abílio. E a Alice Vieira permanece ainda hoje como uma das minhas autoras mais queridas.


 



Fastforward mais alguns anos e chegámos ao meu secundário. Esse foi o período mais fértil das minhas leituras, até hoje. Se para muitos as leituras obrigatórias eram um sofrimento, para mim foram quase uma bênção. A professora de Português prevenia-nos no final do ano lectivo quais seriam as leituras do ano lectivo seguinte, entregando-nos uma lista dos livros que íamos analisar, para que os lêssemos nas férias. Foi na praia que li “Os Maias”, “Eurico, o Presbítero”, Viagens da minha Terra” entre os outros obrigatórios.


 


Nessa altura também tive outras leituras em paralelo, poucas porque para os meus pais comprar um livro era desperdiçar dinheiro. Comprei o “Vale dos Cavalos” de Jean M. Auel antes de uma ida ao médico. Estava com uma gripe horrível e convenci a minha mãe que me iria manter entretida nos dias que ia estar de cama. E, uau!! Todo um mundo maravilhoso se abriu para mim! A história de Ayla encantou-me infinitamente. E quando descobri que pertencia a uma saga (Saga dos Filhos da Terra) pedi emprestados os restantes livros e devorei-os. Foi felicidade pura!


 


Ironicamente, graças a um donativo de uma vizinha e ao olhar atento da minha mãe sobre o meu vício que crescia de dia para dia, ganhei um saco cheio de livros da Harlequin que a vizinha ia deitar fora. Mal sabia ela que aqueles eram os primeiros de muitos. É que os livros da Harlequin eram, além de escandalosamente mais baratos, também românticos e escaldantes, preenchendo assim não só as minhas necessidades como leitora mas também como adolescente e mulher. Eu e uma amiga comprávamos a nossa droga a meias e trocávamos entre nós os livros.


 


A partir da universidade passei a ter mais liberdade e por isso a comprar e a ler mais. Infelizmente o comprar mais nem sempre foi sinónimo de comprar de forma inteligente. Sempre comprei baseando-me na opinião dos outros e daí ter lido os livros de Paulo Coelho, dos quais só gostei de “O Alquimista”, alguns livros de auto-ajuda, New Age e até chic-lit, que hoje abomino. Talvez tenha sido por excesso de más escolhas que tenha ficado dois anos sem ler, há não muitos anos atrás. Simplesmente não tinha vontade.


 


Foi então que me ofereceram o “Cem Anos de Solidão” do Gabriel Garcia Marquez, aquele que eu considero o meu livro número um até ao momento. Acho que o resto é história, para ser sincera. Há 5 anos criei o Ler e Reflectir… para registar as minhas leituras e tenho por isso documentado tudo o que li desde então.


 


 


Porque é que eu gosto de ler? Não acredito que foi por rebeldia de ter crescido numa família de não-leitores. Olhando para as estatísticas portuguesas até acho que a minha família é o normal em Portugal. Creio que no meu caso, o meu gosto pela leitura é inapto. Já conheci crianças que foram estimuladas desde pequenas a lerem e que simplesmente não gostam. São os dois extremos contra os quais não há antídoto. Para mim o mais importante é continuar a dar acesso aos livros, às crianças, de forma gratuita. Bibliotecas, escola, seja de que forma for. Há quem, como eu, que queira ler mas não o consiga fazer de forma regular.


 


Eu já comecei a fazer a biblioteca dos meus “sobrinhos” que nasceram o ano passado. Comprometi-me a ser a tia que oferece os livros. Pode ser que nunca os leiam assim como pode ser que sejam os primeiros de muitos.